sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ouro Preto


Ensaio fotográfico realizado em junho de 2013 na cidade histórica de Ouro Preto em Minas Gerais. A cidade foi fundada em 1698, quando da chegada da expedição chefiada pelo bandeirante Antônio Dias, que saiu de Taubaté (SP) em busca de ouro no interior do Brasil. A corrida do ouro gerou o ciclo econômico da mineração, com intenso povoamento, e os altos impostos da Coroa Portuguesa levaram à Inconfidência Mineira, importante episódio do Brasil Colônia. Sente-se a atmosfera de tanta história ao passar pelas ruas de Ouro Preto, que foi capital de Minas de 1720 a 1897. Qualquer um fica maravilhado com os monumentos, a arquitetura barroca preservada, as belezas naturais e o potencial de ecoturismo da região. Um convite para viajar junto nas fotos a seguir, na possibilidade que o blog tem de ser um álbum aberto de fotografias, de rotas compartilhadas de viagens e experiências.





Pela janela do trem, uma cachoeira surge na paisagem entre
Mariana e Ouro Preto da Bacia do Rio Tripuí (água veloz, em tupi).



Estação de Passagem de Mariana (1914), a 5km do centro de Mariana,
no meio do caminho do Trem da Vale entre Mariana e Ouro Preto.

Ao fundo, vista do famoso Pico do Itacolomi, com 1.700 metros de altitude,

um marco que orientou as expedições dos bandeirantes no século XVII. O
pico está em uma unidade de conservação ambiental (Parque Estadual 
do Itacolomi) e emoldura a bela "cidade da neblina", Ouro Preto, antiga Vila Rica.

Na chegada em Ouro Preto pela ferrovia, entramos em um vale e
esse é um dos primeiros ângulos em que vemos a cidade de relance.


Movimento de pessoas na chegada na Estação Ferroviária de Ouro Preto.
A gente percebe como é agradável uma viagem de trem, e entende
o porquê de ser um símbolo tão forte da cultura mineira.

Estação de Ouro Preto (1883), ponto final do Trem da Vale que parte de Mariana.


Um coreto é sempre um ponto de encontro nessas cidades do interior.
Um sinal dos tempos é que as praças e os coretos têm se perdido nas grandes cidades.


Praça Tiradentes, no Centro de Ouro Preto, com o Museu da Inconfidência em destaque. 
Lá estão os restos mortais de muitos dos inconfidentes. Essa estátua à frente representa 
o local onde a cabeça do alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, 
foi exposta em praça pública.   


        
  Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos foi construída em 1785. Ela 
se destaca entre as igrejas de Ouro Preto por conta da estrutura circular da fachada.


           
  Trecho da Rua São José com o Museu Casa dos Contos no final, que foi a antiga Casa de Fundição, 
onde o ouro era coletado como imposto, transformado em barras com o selo da Coroa e enviado para Portugal. Na Casa dos Contos há um acervo representativo do ciclo do ouro em Minas, e, durante o Fórum das Letras da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o espaço ganha uma livraria temporária, em que os livros são embrulhados em papel de pão, quentinhos para a leitura.




As ruas de Ouro Preto são convidativas para flanar, contemplar a paisagem,
se encantar pela afinidade entre o céu e as montanhas; andar sem tanto rumo, 
desde que se saiba voltar para a Praça Tiradentes, na parte alta da cidade.

Cine Teatro Vila Rica, que fica vizinho à Casa dos Contos. Palco
do 9º Fórum das Letras da UFOP.


Sessão de autógrafos da escritora Adélia Prado após a palestra de abertura do 9º Fórum das Letras da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em maio de 2013. Adélia falou sobre as literaturas da origem, a influência dos mitos e das lendas na escrita literária. Ela ressaltou a contribuição de Carlos Drummond de Andrade e de Guimarães Rosa para a literatura brasileira. Eu disse para a poetisa que costumava dar os livros dela de presente para a minha namorada."Rapaz esperto", ela respondeu.
E quando eu disse que minha mãe era de Piumhi, Adélia me falou:
 "mais mineira impossível. Cê sabe que eu sou de Divinópolis. É pertim."


Textos e fotos
Marco Leonel Fukuda
Músico e comunicador

terça-feira, 23 de julho de 2013

Mariana

Catedral da Sé de Mariana, dedicada à Nossa Senhora da Assunção.
A Igreja Matriz da cidade tem obras de Aleijadinho, Mestre Ataíde e um
órgão alemão raro de fabricante Schnitger (1753). O templo se localiza perto
do Museu Casa do poeta Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), na Rua Direita. 

Ensaio fotográfico da cidade de Mariana (MG), a primeira capital de Minas Gerais, fundada em 1696. O nome da cidade homenageia a Rainha Maria Ana D'Áustria, esposa do rei Dom João V de Portugal. Nas fotos que seguem, uma viagem sentimental e imagética por essa cidade histórica, patrimônio cultural com seus monumentos, igrejas coloniais, acervos artísticos preciosos do barroco mineiro e registros da época da mineração. Uma cidade para recordar, de tão pacata e singela, cheia de encantos que merece mesmo o nome e status de nobreza, como uma princesa situada no meio das montanhas mineiras.


Praça Minas Gerais, no Centro Histórico de Mariana, com a Igreja
São Francisco de Assis (à esquerda) e Nossa Senhora do Carmo (à direita),
belas construções do século XVIII.


A Câmara dos Vereadores de Mariana ao fundo, antiga Casa de Câmara e Cadeia,
também na Praça Minas Gerais. O prédio ainda mantém as celas no subsolo.


Igreja São Francisco de Assis emoldurada pelas escadarias
da Casa de Câmara e Cadeia (Câmara dos Vereadores).  O interior
do templo tem obras do famoso pintor marianense Mestre Ataíde (1762-1830)


Tradicional tapete de serragem feito em Mariana
durante festas religiosas como a procissão do Corpus Christi.

Igreja São Pedro dos Clérigos, que fica
no alto de um morro com uma vista panorâmica
para o Centro Histórico de Mariana.

Estação de Mariana - O ramal ferroviário que liga a cidade
a Ouro Preto foi concluído em 1914. Hoje o passeio de trem
entre as duas cidades é realizado pela Vale e leva uma hora.

  



Palácio dos Bispos - sede do Museu da Música de Mariana, centro
cultural que possui um rico acervo de partituras de música sacra e profana do Barroco,
 além de instrumentos que representam a tradição de bandas de música da região.

Na época visitada, feriado de Corpus Christi, havia partituras em exibição do 
ciclo sacro do Pentecostes, e ao longo do ano, a exposição segue o calendário litúrgico.

Praça Gomes Freire, no centro de Mariana. Os moradores chamam essa praça
carinhosamente de "jardim". Um lugar agradável entre os casarões seculares
e as tortuosas ruas de paralelepípedos.


Cortejo do bloco do Zé Pereira na Praça Jardim de Mariana,
um desfile profano na festa sacra do Corpus Christi 

Fotos tiradas em Mariana (MG) em junho de 2013.

Textos e fotos
Marco Leonel Fukuda
Músico e comunicador

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Olhares de BH

Mercado Central de Belo Horizonte (MG) - fundado em 1929. Importante
centro do comércio e da cultura de Minas Gerais, com artesanato,
comidas típicas, queijos finos, utensílios domésticos, entre outros.
Um ponto turístico e um ponto de encontro na capital mineira.


Camiseta bem-humorada vista na Feira Hippie de BH, realizada sempre
aos domingos quando se fecha a Avenida Afonso Pena, no
Centro, próximo ao Parque Municipal e ao Palácio das Artes.

Tranquilo passeio à tarde na Praça da Liberdade, cartão postal
de Belo Horizonte, um circuito cultural e arquitetônico que
relembra a tradição revolucionária da Inconfidência Mineira.
A praça foi inaugurada junto com a cidade em 1897.

Coreto da Praça da Liberdade, com o Edifício Niemeyer ao fundo,
projetado pelo famoso arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer (1907-2012).
A praça é conhecida por ser síntese de estilos arquitetônicos de várias épocas, 
como art déco, eclético, neoclássico e o paisagismo dos jardins franceses.

Um dia nublado em BH, da janela de um apartamento no bairro
Carlos Prates, ao fundo o delinear do horizonte da Serra do Curral e
elementos de forte ocupação do território.

Obras de construção do corredor exclusivo do ônibus BRT
(Bus Rapid Transit) na Avenida Cristiano Machado,
para tornar o trânsito menos "garrado" nas ruas de BH. 

Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, inaugurado em 1965.
Nessa foto, o estádio é entregue para a FIFA reformado para
a Copa das Confederações de 2013. Vista a partir do Campus

 Pampulha da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Feijão tropeiro com coxas de frango e salada,
uma delícia da culinária mineira, feito pelas
mãos carinhosas da tia Juci, em Betim.

Textos e fotos:
Marco Leonel Fukuda
Músico e comunicador

Fotos tiradas em Belo Horizonte (MG) no início de junho de 2013.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Pedalar a passeio ou como ato político


Concentração do grupo de passeio ciclístico Ciclo Adventure na
Praça Martins Dourado, no bairro Cocó, em Fortaleza.
Foto: Marco Leonel Fukuda

Os passeios ciclísticos crescem em Fortaleza com grupos de pessoas que se reúnem para o lazer e o esporte, ou em iniciativas para promover a bicicleta como alternativa de mobilidade urbana.

A ideia de reunir um grupo para pedalar em passeios noturnos nas grandes cidades brasileiras surgiu em 1989, quando a fotógrafa e cicloativista Renata Falzoni fundou o Night Biker’s Club, grupo de ciclistas que desde 1993 realiza roteiros de bicicleta nas noites de terça-feira em São Paulo. Além de difundir a prática do ciclismo como esporte, em particular da modalidade do Mountain Bike, os passeios tinham por objetivo promover a bicicleta como meio de transporte, com orientações de medidas de segurança para os ciclistas e de educação no trânsito.


O costume rapidamente chegou a Fortaleza, e um dos passeios ciclísticos noturnos mais antigos da cidade é organizado desde 1998 pela loja Sport & Bike, no bairro Varjota, todas as segundas e quartas a partir de 20h30. A empresária de moda Rosana de Carvalho, 49, frequenta esse passeio há mais de três anos e levou pela primeira vez a filha Gabriela, 18, universitária, para participar da atividade. Rosana vai de carro trazendo a própria bicicleta de casa; ela gosta de pedalar nos passeios por conta do exercício físico e das amizades que faz no grupo. Porém vê dificuldades de conforto e tempo para utilizar a bicicleta ao se locomover no dia a dia pela cidade. “Porque o trânsito é louco, a cidade é quente, e tenho medo de assalto”, justifica.


José Rogério de Farias, 56, empresário do setor de transporte, organiza todas as terças e quintas os passeios de bicicleta da sua loja Ciclo Adventure, que sai às oito horas da noite da praça Martins Dourado, no bairro Cocó. Seu Rogério começou a pedalar por recomendação médica e incentivo dos filhos. Incorporou a bicicleta no estilo de vida, melhorou de saúde e, a pedido dos clientes, passou a realizar os passeios ciclísticos também como uma estratégia de negócios. Ele aponta os batedores experientes orientando os trajetos e a retaguarda do carro de apoio para proteger o grupo como diferenciais de estrutura e segurança nos passeios viabilizados por algumas lojas de artigos de ciclismo. Para Rogério, “os passeios são como uma pequena manifestação, que tranca a rua e diminui o ritmo do trânsito. Além do lazer, o passeio é uma mostra para tentar sensibilizar os motoristas da maior mobilidade da bike em relação ao carro”, explica.

Na manhã do segundo domingo de cada mês, na Praça Luíza Távora, os voluntários 
da Escola Bike Anjo ensinam a andar de bicicleta e orientam quem quer pedalar no cotidiano.
Foto: Marco Leonel Fukuda

Mudando de marcha
Pedalar em outros horários e com finalidades distintas é um fenômeno que se observa nas ruas da capital cearense. O professor e guia de turismo Paulo Probo, 45, mobiliza passeios de bicicleta solidários para arrecadar donativos para instituições filantrópicas, além de coordenar os passeios ciclísticos do projeto “Viva o Centro”, de educação patrimonial e turismo cultural com roteiros pelo Centro Histórico de Fortaleza nas manhãs e tardes de domingo, com agendamento prévio para escolas e empresas. “A bicicleta favorece muito o contato mais íntimo com a cidade e os equipamentos, torna tudo mais prazeroso. Dinamiza o passeio na relação de cuidado das pessoas consigo, com o outro e a cidade”, afirma. Paulo é morador do Centro e pedala todos os dias até o trabalho na Aldeota. Duas vezes por semana, leva de bicicleta o filho João Gabriel, de dois anos, para a creche em um banco adaptado para a criança na garoupa, sem esquecer do capacete para ambos.


Joaquim Alencar, 50, contador e empresário, é praticante do triathlon de “endurance”, voltado para provas longas de resistência física. A bicicleta para Joaquim é incluída na rotina de treinos desse esporte, que iniciou com o auxílio de assessorias especializadas. Ele é categórico quando o assunto é segurança. “Pelo que observamos na rua, saímos equipados adequadamente para o ato de pedalar bicicleta e treinar. Os equipamentos são capacete, vestimenta auto-refletida, roupas mais finas e uma lanterna. O ciclista deve pedalar no sentido da via, obedecendo o fluxo”, conclui.


O cicloativismo, ou a militância em prol da bicicleta como meio de locomoção, é o que move a ação política do advogado Celso Sakuraba, 26. Ele integra o movimento Massa Crítica Fortaleza, grupo à frente de manifestos para reivindicar a construção de ciclovias e melhorias na mobilidade urbana. “A Massa Crítica não se vê como grupo de passeio ciclístico. Ela faz manifestação pedalando”, contrapõe. Celso mora no Dionísio Torres, trabalha na Aldeota, e usa a bicicleta diariamente em todos os percursos. O movimento com influências anárquicas, realiza bicicletadas sempre na última sexta-feira de cada mês, em trajetos espontâneos partindo às 19h da Praça da Gentilândia. Quem sempre teve vontade de aprender a andar de bicicleta e utilizá-la como transporte, pode participar dos encontros da Escola Bike Anjo, nas manhãs do segundo domingo de cada mês, na Praça da CEART, na Aldeota.


O grupo de Passeio Ciclístico Ciclo Adventure se reúne todas as segundas e quartas, para sair às 20h da Praça Martins Dourado, no Cocó. Na foto, o grupo retorna na Avenida Washington Soares sentido Aldeota.
Foto: Marco Leonel Fukuda


Vida de Repórter
Tive a experiência de acompanhar um passeio ciclístico da Ciclo Adventure numa noite de quinta. Tirei a bicicleta guardada da garagem e a empurrei com os pneus vazios até a praça. Consegui pedalar 10 km, um terço do trajeto de ida e volta, que saía da entrada da Cidade 2000 até o posto Maluaga, sentido Beach Park. Parei pelo cansaço e depois de ver um ciclista a dez metros caindo da bike e quebrando o pé. Esperamos a ambulância chegar, segui o passeio descansando na kombi e aproveitei para entrevistar o Seu Rogério, organizador do passeio. As entrevistas antes de pedalar me permitiram entrar no universo sob duas rodas, entender mais o linguajar dos ciclistas, e as divergências ideológicas entre os frequentadores dos passeios noturnos e os integrantes dos movimentos cicloativistas, para enriquecer a matéria.

O grupo de passeio ciclístico Sport &Bike na concentração antes da
partida na rua Ana Bilhar, no bairro Varjota.
Foto: Marco Leonel Fukuda



Serviço

Passeio ciclístico Sport & Bike (24-30km) - 2ª e 4ª - 20h30 - Rua Ana Bilhar, 1680, 

Varjota                             (85) 3267-7452 / 8618-9045

Aluguel de bicicleta, capacete e carro de apoio: R$20. Quem já tem bicicleta, paga R$2 para ter direito ao carro de apoio.


Passeio ciclístico Ciclo Adventure (24-30km) - 3ª e 5ª - 20h - Praça Martins Dourado, 

Cocó                             (85) 3249-3636 / 9659-3926


Aluguel de bicicleta, capacete e carro de apoio: R$20. Carro de apoio: R$2

Federação de Triathlon do Estado do Ceará (Fetriece) (85) 3253.0321 - www.fetriece.com.br 


Viva o Centro! (9-11km) - domingos 9h ou 16h - (85) 8688-1344


Bicicletada Massa Crítica (10-12km) - última sexta de cada mês, às 19h, na Praça da 

Gentilândia.        www2.fortalezacritica.org

Escola Bike Anjo - segundo domingo de cada mês, de 8h às 12h, na Praça Luiza Távora (CEART), Aldeota            www.bikeanjo.com.br




Marco Leonel Fukuda
Músico e comunicador

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Perspectivas mais acessíveis de mobilidade urbana


O trajeto cotidiano de um deficiente visual no transporte público traz à tona reflexões sobre acessibilidade e mobilidade urbana. Leia o perfil e pegue carona na história de Geovanio.



Geovanio senta em lugar cedido na topic 55 não por gentileza, mas pelo direito de assento preferencial garantido por lei para as pessoas com deficiência. Foto: Marco Leonel Fukuda

É como um carro com um vidro que embaça em um dia nublado, uma manhã de junho de chuva intermitente e inesperada em Fortaleza. Aparecem diante dos olhos vultos e imagens borradas sob o céu frio e acinzentado. O contraste entre a claridade da luz solar refletida nas nuvens brancas e o sombreamento do horizonte obriga ainda assim a usar o par de óculos escuros. É assim como Geovanio Ferreira da Silva, 44 anos, estudante de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará (UECE), descreve a própria visão e se apresenta para o nosso perfil, enquanto esperamos o ônibus em uma parada da Avenida 13 de maio.

Geovanio é deficiente visual, com cerca de 0,05% da visão pelas estimativas dele, por conta do diagnóstico de retinose pigmentar. Os oftalmologistas acreditam que essa doença degenerativa da retina tem causas hereditárias, mas o paciente atribui a cegueira ao sarampo que teve aos cinco anos de idade. A retinose causou danos graves nas células da retina e do nervo ótico, na parte de trás dos olhos, com perdas significativas na captação de luz e de cores essenciais para formar as imagens.

Dou sinal à topic 55 e então subimos: eu pela frente; Geovanio tem direito à isenção da tarifa e sobe pela porta de trás. Ele me explica que o cartão de gratuidade que possui não é um passe livre. Na verdade é um acordo entre a Prefeitura de Fortaleza e os empresários do setor de transporte público para subsidiar as passagens dos idosos e das pessoas com deficiência. O validador eletrônico do cobrador registra mais uma passagem a ser cobrada depois do tesouro municipal. Para ter direito a esse cartão renovável a cada ano, a pessoa com deficiência precisa provar a sua condição, apresentando um exame de acuidade visual, um laudo médico, um formulário do posto de saúde e um comprovante de renda do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

Geovanio recebe mensalmente um salário mínimo de Benefício de Prestação Continuada (BPC) do INSS, que o ajuda a continuar os estudos de Licenciatura em Filosofia e a sonhar com a sala de aula, no futuro, como professor. Se começar a trabalhar com carteira assinada, o deficiente visual perde o cartão de gratuidade. É contraditório também que se outras pessoas com deficiência visitarem a capital cearense, elas não terão direito à isenção da passagem de ônibus, nem de utilizar os cartões de seus locais de origem para se deslocarem pela cidade.


Geovanio Ferreira da Silva, 44, espera na parada seletiva de ônibus da Avenida Bezerra de Menezes junto com os demais usuários do transporte coletivo, no exercício cotidiano do ir e vir de todo cidadão.  Foto: Marco Leonel Fukuda


Geovanio enxergou normalmente e andou de bicicleta até os 26 anos, quando lupas para leitura e sucessivos óculos não foram suficientes para acompanhar a perda da lateralidade do campo visual. Em apenas dois anos, diminuiu rapidamente a visão periférica antes de afetar a visão central, e trouxe também a fotofobia, ou aversão à luz, ao não se sentir mais confortável em lugares muito claros ou muito escuros. Porém, surpreende pela prodigiosa memória, por ter decorado pontos de referência como o final da Avenida Domingos Olímpio, e as curvas até chegarmos ao North Shopping, cujo sopro do ar condicionado da entrada Geovanio consegue perceber pela sensibilidade da pele desde a janela da topic. Ele se acostumou a desenvolver os outros sentidos e a fazer mapas mentais com detalhes dos lugares que mais frequenta, tanto que dentro de casa ele nem precisa usar a bengala. E no caixa preferencial das lotéricas, até retirou cédulas organizadas de dentro da carteira, e perguntou, só para conferir, se eram mesmo duas notas de cem para pagar a fatura de duzentos reais do cartão de crédito.

Apesar das limitações desde que começou a perder a visão, Geovanio abraçou a religião evangélica, foi aprovado no vestibular e participou de cursos no Instituto dos Cegos e na Associação de Cegos do Estado do Ceará (ACEC). A fé e a determinação foram fundamentais para vencer inseguranças e desmistificar preconceitos em relação às pessoas com deficiência. Além da leitura em Braille, a realização de tarefas domésticas e diversos cursos profissionalizantes para a inserção no mercado de trabalho, ele ressalta a importância das aulas de orientação e mobilidade para a autonomia que adquiriu como deficiente visual.

A partir desse último curso, Geovanio aprendeu a manusear com destreza a bengala longa com movimentos de semicírculos para localizar obstáculos, proteger os passos de cada pé alternadamente, para assim andar pela cidade e até viajar sozinho. O curso de orientação e mobilidade prepara para uma vida independente, e também ensina às pessoas com perda de visão como subir e descer no transporte coletivo, além de utilizar elevador e escadas comuns ou rolantes.

Geovanio mora na Leste-Oeste e leva uma hora todos os dias no trajeto até a faculdade no bairro de Fátima, na topic 55 ou nos ônibus Albert Sabin e Grande Circular 1. Ele se recorda que há dez anos havia o ônibus Campus do Pici/Unifor da empresa São José de Ribamar, com ar condicionado e sintetizador de voz anunciando as próximas paradas. Essa demanda se soma à necessidade de melhorar o atendimento de motoristas e cobradores nos ônibus, bem como de guardas municipais e fiscais nos terminais integrados para guiar e orientar as pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida. Geovanio lamenta as recentes manifestações que ocuparam as ruas das principais cidades do Brasil não terem incluído a acessibilidade como pauta de direitos e cidadania. Ele propõe que mais campanhas educativas sejam realizadas para informar e conscientizar a população, a fim de que as pessoas com deficiência possam ser incluídas de fato na vida em sociedade.



Marco Leonel Fukuda
Músico e comunicador

domingo, 16 de junho de 2013

Campos do Peito


Ouça a seguir a música "Campos do Peito", de Rodrigo de Oliveira, recomendada e publicada aqui no Blog Cultura Ciliar. Uma peça que traz o ritmo do boi maranhense, mesclado às vozes do coro masculino, violão, viola caipira e percussão.





Daniel Leão com sua zabumba e Rodrigo de Oliveira na gravação
de "Campos do Peito" em home studio - maio/2013
Foto: Marco Leonel Fukuda

Campos do Peito (Rodrigo de Oliveira)

(Refrão)
Considere o amor que existe
E nos revigoremos nele
Enquanto a cidade assiste
Barbáries e intempéries
Um coração que está em riste
Alheio aos cortes nele
Com sua pulsação resiste
Com seu balançar, deleite
Se uma embarcação insiste
Em navegar em mar aberto
Decerto um olhar atento
Leva a gente mais pra perto
(Refrão)
A saudade aqui no meu peito
Infecciona o pensamento
Mas o amor que tem dentro dele
Vem me soprar o alento

E num tempo aflito desse
A palavra é “paciência”
E a admiração das coisas da terra
Vem me mostrar ciência
(Refrão)
(Interlúdio)
Se der, consigo
Se der, ação
Sigo se der – e consigo
Contigo sigo o coração
.
Se a vida pede coragem
Pra frente vamos andar
A nos guiar na verdade
Peito aberto pro mar
E no tempo do amor refeito
Florir os campos do peito
Redescobrir o afeto
Redesenhar o feito
(Refrão)


Ficha técnica
Rodrigo de Oliveira: composição, voz, percussão (matraca e caxixi)
Marco Leonel Fukuda: arranjo, viola caipira, violão, voz e gravação
Daniel Leão: zabumba e voz
Ninno Amorim: voz
Gustavo Portela: mixagem

Obras da Copa em Belo Horizonte

Obras da construção do corredor exclusivo para ônibus BRT na Avenida Cristiano Machado, na região nordeste da capital, ligando o Aeroporto de Confins ao Centro de Belo Horizonte.
Foto: Marco Leonel Fukuda

Assim como Fortaleza, Belo Horizonte também será cidade-sede das Copas das Confederações e do Mundo. Conheça a realidade das grandes obras de infraestrutura e de mobilidade urbana que a capital mineira tem preparado para receber esses megaeventos esportivos.

Dois modelos de ônibus BRT ("sanfonados") em exposição
nas obras do corredor exclusivo da Avenida Cristiano Machado.
Foto: Marco Leonel Fukuda

Belo Horizonte também se prepara com obras para sediar os jogos da Copa das Confederações este ano e a Copa do Mundo no ano que vem. A Prefeitura de BH e o Governo do Estado de Minas Gerais realizaram intervenções na área da Pampulha, nos arredores do estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão. 

A primeira obra realizada foi o complexo de viadutos José Alencar com dois viadutos e um túnel interligando as avenidas Antônio Carlos e Abrahão Caram, para dinamizar o tráfego em uma região de interesse turístico na cidade, próxima ao estádio, ao aeroporto regional Carlos Drummond de Andrade e ao campus principal da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

O complexo de viadutos cruza uma área escolhida para um dos corredores exclusivos do ônibus de grande capacidade BRT (Bus Rapid Transit) no trecho Antônio Carlos-Pedro I. A obra foi concluída em dezembro de 2011 com um investimento de R$34,5 milhões, da etapa inicial do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), destinado às obras de mobilidade urbana para a Copa de 2014. BH foi a primeira cidade do Brasil a participar do financiamento do PAC-Mobilidade do Ministério das Cidades.

Obras de corredor de ônibus BRT entre as avenidas Santos Dumont e Paraná,
no Centro de Belo Horizonte, próximo à Rodoviária da cidade.
Foto: Marco Leonel Fukuda 

Em Fortaleza pelo mesmo programa há projetos previstos de R$3,4 bilhões para a implantação da linha leste do Metrô, de corredores BRTs nas avenidas Dedé Brasil, Paulino Rocha, Raul Barbosa e Alberto Craveiro, além do ramal de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) Parangaba-Mucuripe.  

Em entrevista coletiva de imprensa, o prefeito Márcio Lacerda disse que os erros de execução que geraram a demolição para refazer um trecho da avenida Cristiano Machado, da Linha Verde – conexão do Aeroporto Internacional de Confins ao centro – e a quebra do concreto de partes do corredor da avenida Antônio Carlos, que liga o centro ao estádio Mineirão, irão ser pagos pelas empreiteiras contratadas. 

Para a professora Jupira Gomes de Mendonça, coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFMG, o transporte público de Belo Horizonte precisa ainda de muitas melhorias. Para a pesquisadora, a ampliação prevista do metrô provavelmente não será concluída até a Copa de 2014, e, quando for instalado o sistema BRT, a Prefeitura terá de fazer novas adaptações para se adequar às grandes linhas. “O  sistema de transporte de BH não atende a malha viária das áreas conurbadas da região metropolitana. Existem tarifas diferenciadas, falta integração de sistema de transbordo com passagem única, terminal, cartão único, por exemplo”, afirma. As diferenças das passagens de ônibus estão nos valores pagos pelos usuários que oscilam entre R$2,80 e R$5,30. 

Entrada Sul do estádio Mineirão com a nova esplanada à esquerda,
a cerca e os pavimentos de concreto. Nos dias de jogos comuns,
é por onde entra a torcida do Cruzeiro nas partidas com mando de campo.
Foto: Marco Leonel Fukuda

Obras do Mineirão
As obras de reforma do estádio Mineirão custaram R$695 milhões, segundo o Portal de Transparência do Governo Federal, executadas por meio de uma parceria público-privada entre o governo estadual e um consórcio de empreiteiras, da mesma forma como foi feito nas obras de R$545,9 milhões no estádio de Fortaleza. O novo Mineirão foi concluído no dia 21 de dezembro de 2012, sendo o segundo estádio brasileiro a ficar pronto seis dias após o Arena Castelão.  

Na reinaguração do estádio no dia 4 de fevereiro de 2013, em um jogo clássico entre Cruzeiro e Atlético Mineiro, o Mineirão teve bares fechados e falta de abastecimento de água nos bebedouros e nos banheiros. Outro problema noticiado na mídia de Minas foi a dificuldade de acesso, de sinalização e a falta de lugares reservados para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida no show de Paul McCartney, realizado três meses depois, no dia 4 de maio. Os dois episódios renderam uma multa do governo estadual de R$1 milhão ao consórcio Minas Arena pelos erros logísticos de operação e uma ação civil pública do Ministério Público do Estado (MPMG) de descumprimento de normas de acessibilidade com o pedido de liminar para suspender os próximos jogos e eventos no estádio. Porém, no último dia 27 de maio, quando visitamos o local, o Mineirão foi entregue oficialmente para ser administrado pela FIFA, sediando exclusivamente partidas e eventos da entidade, com as visitas do público suspensas durante a Copa das Confederações.

De acordo com o publicitário Fidélis Oliveira, membro do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa (COPAC-BH), nas reformas iniciadas em 2011 foram retirados feirantes de artesanato e comidas típicas do Mineirinho, ginásio anexo ao estádio. O integrante do COPAC também citou a retirada de ambulantes do Mineirão neste ano, com a proibição da venda do churrasquinho e do tradicional feijão tropeiro. No aspecto ambiental, a construção da esplanada do estádio cortou 800 árvores e os pavimentos de concreto alteraram os aspectos sociais e climáticos do lugar, segundo Fidélis. “A obra privatizou o espaço do Mineirão com grades, esplanada, reduzindo opções de lazer para as famílias nos dias dos jogos de futebol.” disse. 

O prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB-MG), declarou que serão plantadas 10 mil árvores em vários pontos da cidade como forma de compensação ambiental das obras de reforma do estádio. Sobre a questão do comércio informal no entorno do Mineirão, Lacerda rebateu afirmando que a Prefeitura no momento estuda licitações para transferir os ambulantes para novas áreas de feiras na capital mineira.

Coletiva de imprensa do III Congresso As Melhores Práticas SIBRT na América
Latina, sediado no Hotel Ouro Minas, em BH, na manhã do dia 6 de junho de 2013.
Foto: Marco Leonel Fukuda

Vida de Repórter
Fazer reportagem como enviado especial em outra cidade é um privilégio, uma rica experiência para a formação de um jornalista. Primeiro fiz uma pesquisa de dados oficiais, do que a mídia local noticiou sobre o assunto, além de investir em créditos de interurbano de celular e de telefone público para contactar as fontes e marcar entrevistas. Visitei o Mineirão e não consegui ter acesso, pois era no dia 27 de maio, data da entrega oficial do estádio à FIFA. Porém, em 6 de junho, obtive uma credencial para a coletiva de imprensa com o prefeito de Belo Horizonte. Após a sabatina das emissoras de rádio e TV, Márcio Lacerda foi gravar um vídeo institucional no canto da sala e, acompanhando o movimento dele, eu o interpelei para perguntas exclusivas. Com o caderno de anotações e a câmera fotográfica à mão, utilizei as linhas de ônibus da cidade para me deslocar e assim pude registrar as entrevistas e o cenário de obras para a matéria.

Rosquinha "Mineirão", iguaria da culinária mineira
que homenageia o estádio "Gigante da Pampulha"
Foto: Marco Leonel Fukuda

Marco Leonel Fukuda
Músico e comunicador

terça-feira, 11 de junho de 2013

História do transporte público em Fortaleza


Praça Castro Carreira (Praça da Estação) de Fortaleza no início do século XX,
com a Estação João Felipe ao fundo, inaugurada em 1873. Foto: Acervo RFFSA.

Faça uma viagem pelo tempo, de 1873 a 2013, em um panorama de 140 anos de história do transporte público em Fortaleza. Conheça a evolução desde os bondes puxados por burros aos ônibus na municipalização do sistema de transporte na capital.

Bonde de tração animal puxados por burros,
implantado em 1880 em Fortaleza. Foto: Acervo Nirez

Trilhos
Para compreender o percurso histórico do transporte público em Fortaleza, é necessário voltar para o final do século XIX. A cidade ainda era uma provinciana capital que crescia com o comércio do algodão e vivia a influência cultural da Belle Époque francesa nas praças, nas construções, nos costumes sociais e no traçado urbano. 

Em 1870, Tomás Pompeu de Sousa Brasil, o Senador Pompeu (1818-1877), conseguiu uma licença com o Imperador Dom Pedro II para construir o primeiro trecho de ferrovia do Ceará, em sociedade com homens de negócios como o Barão de Aquiraz e o empresário inglês Henry Brocklehurst. Se no plano cultural daquela época, a influência era da França, na dimensão econômica e tecnológica, a Inglaterra era a principal referência: de lá que vieram os trilhos, as locomotivas a vapor, os carros de passageiros, os vagões de cargas, o material rodante e os acessórios ferroviários para o ramal que ligava a Estação Central de Fortaleza à Estação Arronches, na Parangaba.

Segundo Hamilton Pereira, engenheiro ferroviário aposentado da RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.), “o transporte ferroviário era um vetor de progresso, desbravando sertão adentro, com o crescimento das cidades em torno das ferrovias e o desenvolvimento do Nordeste.” Para o engenheiro, o fluxo de produtos que vinham do interior para a capital era dificultado pela baixa infraestrutura das estradas e pelo transporte de tropas de mula. 

O cenário do transporte no Ceará muda com o advento das ferrovias, que passam a trazer as cargas de arroz, cana-de-açúcar e carne de Maranguape e café de Baturité diretamente para Fortaleza. A capital se torna um ponto de apoio privilegiado para o comércio, por conta do porto e da instalação dos trens. Além do escoamento de mercadorias, a ferrovia vai prover na década de 1920 o transporte de passageiros com conexões de trem suburbano entre a cidade e municípios próximos como Maracanaú e Caucaia.


Os bondes elétricos de Fortaleza foram implantados em 1913
pela Light, com energia oriunda da queima de carvão da Usina
de Luz e Força do Passeio Público. Foto: Acervo Nirez

Rodovias
A primeira linha de ônibus surge em 1926, como registra o acervo Nirez, da Praça do Ferreira ao Matadouro Modelo, onde hoje funciona a Regional I, próximo à estação Otávio Bonfim. Naquele tempo, a pavimentação em Fortaleza ainda era bastante precária, o que levou a disputas territoriais entre os bondes elétricos e os ônibus para circular nos trilhos assentados desde 1913 pela Light nas ruas da cidade. A briga por espaço e por passageiros levou a concessionária inglesa a entrar sem sucesso na Justiça com uma ação contra as empresas de ônibus, e assim começa a se dissolver o monopólio da operação do transporte público na capital cearense. 

De acordo com a historiadora Patrícia Menezes, mestre em História Social pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenadora de documentação do Centro Cultural do Transporte CEPIMAR/SEST/SENAT, a década de 1920 inaugura o ônibus como modalidade de transporte coletivo em Fortaleza pelos itinerários fixos e pela política de tarifas. “O grande paradoxo é o transporte ser um serviço público feito por empresas privadas”, afirma a historiadora, que inclui nesse processo os problemas de locomoção e regulamentação do transporte observados historicamente em Fortaleza. Os trajetos mais rentáveis e a maioria das linhas de ônibus se concentravam no Centro e em bairros próximos, enquanto que a periferia não era bem servida de opções de linhas, demonstrando a falta de planejamento público de mobilidade. Havia também a diferença de tarifas por seções, que iam encarecendo à medida das distâncias percorridas. 

O serviço do transporte fortalezense naquela época teve sérios problemas de normatização e de flutuação administrativa. Faltavam leis que definissem a padronização dos veículos que realizariam os trajetos das linhas, bem como em relação a normas básicas de segurança e a responsabilidade das instituições para regular, controlar e fiscalizar o transporte público. Antes do primeiro Regulamento Municipal do Transporte aprovado pela Câmara dos Vereadores em 1954, havia dúvida de quem administraria o transporte na capital: a Inspetoria Estadual de Trânsito (atual Detran) ou o Departamento de Transportes Coletivos da Secretaria de Serviços Urbanos, órgão  criado em 1948 pelo prefeito Acrísio Moreira da Rocha. Além do mais, os ônibus eram construídos artesanalmente com carrocerias de madeira colocadas sobre chassis de caminhões, o que causou inúmeros acidentes como atropelamentos, incêndios e colisões com automóveis e bondes, registrados pela imprensa local. 

Fazer o retorno e observar o trânsito nessa movimentada avenida da história do transporte público em Fortaleza é importante para entendermos a complexidade da atual conjuntura da mobilidade urbana e o desenvolvimento do sistema municipal de transporte na cidade. O desafio que se coloca hoje para a capital do Ceará é planejar e investir em melhorias do transporte e na variedade de opções de deslocamento, para garantir plenamente o direito de ir e vir do cidadão, a partir dos caminhos sinalizados historicamente.


Ônibus Elétricos da CTC/Fortaleza - Foto: Acervo Nirez

Curiosidades históricas
Podemos também situar em Fortaleza a pontual presença de meios de transporte híbridos que fracassaram pela inviabilidade. A primeira dessas curtas experiências foi a “Pata-choca”, um rudimentar trator a gasolina que puxava vagões de bondes, levando cargas e passageiros até a distante Messejana no final da década de 1920. Outro caso curioso ocorreu durante a gestão do prefeito Murilo Borges, com a criação da Companhia de Transportes Coletivos (CTC) e a implantação dos ônibus elétricos em 1967, inspirada nos antigos electrobus ingleses do século XIX. A CTC foi uma tentativa de municipalizar e retomar o monopólio do serviço de transporte urbano a partir de uma instituição pública, e o meio escolhido foi o ônibus elétrico, que substituía o motor de combustão interna a diesel por um sistema de postes e fiação elétrica. Em 1971, o prefeito José Walter vendeu os nove ônibus elétricos da CTC, que posteriormente se reduziu apenas ao transporte escolar.

Essas são algumas das histórias do transporte público em Fortaleza para quem visita as exposições do Centro Cultural do Transporte da Federação dos Transportes CEPIMAR (Ceará, Piauí e Maranhão), associada ao SEST/SENAT. A instituição se localiza na Rua Dona Leopoldina, número 1050, Centro. O acervo de 60 mil documentos e publicações da história do transporte rodoviário em Fortaleza e no Ceará é aberto para consulta local de pesquisadores. As exposições podem ser agendadas com visitas guiadas para escolas no projeto “Pela Janela do Ônibus”, pelo telefone (85) 3252.2624.  

Marco Leonel Fukuda
Músico e comunicador