quinta-feira, 3 de maio de 2012

A Dama de Ferro humanizada


fonte: www.acontececuritiba.com.br
 
É uma senhora viúva, que caminha suavemente pelo apartamento, tendo as lembranças como companheiras. Ela conversa com o fantasma do falecido esposo, como se ele ainda estivesse presente em casa, dando-lhe conselhos e suporte emocional. A partir de álbuns de retratos, filmagens de férias em família, recortes de jornais e imagens de documentários, reconstroi-se em A Dama de Ferro (The Iron Lady, Inglaterra, 2011) a história de uma notável estadista. O filme concilia a vida pessoal e a atuação pública de Margaret Thatcher (1925-), primeira-ministra britânica, que governou o Reino Unido de 1979 a 1990, em plena Guerra Fria. Uma mulher pioneira a ocupar cargos de autoridade na política mundial, a primeira liderança feminina a se tornar uma chefe de Estado.

Margaret Thatcher, mulher forte e à frente de seu tempo, recebeu dos soviéticos o apelido de “Dama de Ferro”, por ser uma governante decidida, firme, porém autoritária, pela resistência ao machismo reinante na política inglesa e por não aceitar contrariedades dos aliados e dos opositores políticos. No filme da diretora britânica Phyllida Lloyd (Mamma Mia!), símbolos da presença feminina como o colar de pérolas, o tailleur azul e o salto alto são mostrados com inteligência em planos detalhes, focalizados pela câmera, contrastando com os sobretudos, os ternos e os chapéus-coco dos lordes no Parlamento inglês. 
 

Margaret Thatcher e Meryl Streep (Revista Veja)
A premiada atriz norte-americana Meryl Streep (O Diabo Veste Prada) encarna a protagonista Margaret Thatcher durante o mandato como primeira-ministra e na maturidade, aposentada das atividades políticas. A atuação brilhante de Meryl Streep em A Dama de Ferro lhe rendeu o terceiro Oscar da carreira, com especial menção ao trabalho não só da atriz, que demonstrou um perfeito domínio de cena e do sotaque do inglês britânico, mas também da equipe de maquiagem e caracterização. Com propriedade e coerência conseguiram traduzir a passagem dos anos na vida da personagem. Integrando o elenco do filme, o também vencedor do Oscar Jim Broadbent (Moulin Rouge) desempenha o papel coadjuvante de Sir Denis Thatcher, marido de Margaret. 

O filme humaniza a vida dessa líder, mostrando alguns momentos felizes, decisivos e outros de dúvidas e inseguranças. A história de Margaret Thatcher é tratada com o devido respeito, sem mitificar o personagem, como é comum de muitas cinebiografias. O filme retrata as origens humildes dela, como filha de um comerciante e líder sindical. Por influência do pai, Margaret se interessa por política e vai estudar em Oxford. Ela se apaixona por Denis Thatcher, que será o companheiro de uma vida inteira. O casal tem dois filhos, Carol e Mark, para os quais Margaret não tem muito tempo, por causa da agenda de compromissos políticos. Ela vive o dilema da mulher moderna, de constituir família e trabalhar fora de casa. A carreira caminha gradualmente, de deputada a líder do Partido Conservador, até chegar ao posto máximo de primeira-ministra.

Margaret assumiu o poder em um momento de crise, implantando o hoje questionado neoliberalismo, com cortes de orçamento, arrochos salariais e privatizações de empresas estatais como medidas para conter a inflação. No filme, ela enfrenta sucessivas greves de trabalhadores por essas medidas impopulares. A aprovação do seu governo melhora após a vitória na Guerra das Malvinas, quando o “Império Britânico” novamente prova a superioridade militar e retoma da Argentina o controle das ilhas Falklands.

Ainda que com bandeiras ideológicas e partidárias distintas, o pioneirismo de Margaret Thatcher abriu precedentes para que outras mulheres como Michele Bachelet, Angela Merkel, Cristina Kirchner e Dilma Rousseff assumissem o comando de nações ao redor do planeta. 

A Dama de Ferro é uma aula de história contemporânea, que de tão recente, não chegou ainda a ser relatada nos livros didáticos. O ponto de vista é o lado humano dessa mulher diante do poder, tendo a graça e a sensibilidade femininas como marcas na política.

Veja o trailer do filme A Dama de Ferro (2011):


Marco Leonel Fukuda
Músico e estudante de Jornalismo

Um comentário:

Marco Leonel Fukuda disse...

A Dama de Ferro segue o caminho de filmes históricos da política britânica, com boa aceitação do público ao redor do mundo. Outro filme a destacar dessa tendência é "O Discurso do Rei", merecido vencedor do Oscar de Melhor Filme 2011, que conta a história do Rei George VI, envolvendo a fala de um estadista, o surgimento da comunicação pública no mundo (BBC nas décadas 1920/1930). Em "O Discurso do Rei", a princesa Elizabeth é uma criança, que viria a se tornar a Rainha Elizabeth II, que em 2012 comemora 60 anos de reinado. Dois ótimos filmes para quem gosta de história, política e perfis humanos no cinema.